Após atingir patamares históricos, a cotação do ouro voltou a subir com a guerra no Oriente Médio, após ataques ao Irã. Especialistas explicam os cuidados ao investir no metal precioso.
Por Micaela Santos, g1 — São Paulo

Barras de ouro — Foto: Reuters
Com a escalada da guerra no Oriente Médio após ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, o ouro voltou a disparar nos mercados internacionais nesta segunda-feira (2).
Considerado um investimento de proteção em momentos de crise, o metal passou a ser mais procurado à medida que ações e outros ativos mais arriscados recuavam.
Movimentos semelhantes já foram vistos em outras grandes crises recentes, como a guerra na Ucrânia, conflitos no Oriente Médio, tensões entre EUA e Irã, a guerra comercial entre EUA e China, e também durante a pandemia.
Nos últimos meses, no entanto, a cotação do metal precioso tem chegado a patamares históricos. Desde o início de 2026, o ouro já vinha em trajetória de alta, impulsionado por incertezas políticas, dúvidas sobre os juros americanos e aumento das compras por bancos centrais.
Ouro bate novo recorde histórico e supera outros investimentos com ampla vantagem
O mercado internacional foi surpreendido em janeiro com um novo marco para o ouro. O metal precioso ultrapassou pela primeira vez a barreira simbólica dos US$ 5 mil por onça e, na sequência, alcançou o recorde histórico de US$ 5.595, consolidando o maior valor já registrado.
O desempenho impressiona quando comparado a outros ativos. Nos últimos 12 meses até fevereiro, o ouro acumulou valorização superior a 85%,desempenho muito superior ao da bolsa brasileira e de outros investimentos populares.
No mesmo intervalo, o Ibovespa registrou alta próxima de 54%. Já o índice de ações focadas em dividendos avançou cerca de 49%, enquanto as chamadas small caps — empresas de menor capitalização — subiram aproximadamente 44%. Apesar dos ganhos expressivos da bolsa, nenhum desses segmentos conseguiu acompanhar o ritmo acelerado do ouro.
O que explica a alta do ouro?
Segundo analistas, a busca por segurança explica grande parte desse movimento. Para Thiago Azevedo, sócio-fundador da Guardian Capital, a disparada é resultado de uma combinação de fatores globais.
“O ouro atingiu níveis recordes principalmente por causa da expectativa de queda dos juros nas principais economias, do aumento das tensões geopolíticas e da procura por proteção do patrimônio. Em cenários assim, os investidores costumam reduzir a exposição a aplicações mais arriscadas e aumentar a presença em investimentos considerados mais seguros”, afirma.
A atuação dos bancos centrais também tem sustentado os preços. De acordo com o economista Mauriciano Cavalcante, da Ourominas, vários países vêm trocando parte de suas reservas em dólar por ouro.
Isso porque o ouro não depende de nenhum país específico, ao contrário do dólar, que está ligado à economia dos EUA. Por isso, em períodos de guerra, sanções ou instabilidade financeira, o ouro tende a manter valor melhor que moedas.
“O preço do ouro sobe por diversos motivos, mas hoje o fator mais relevante é a procura dos bancos centrais, que estão ampliando suas reservas em ouro e diminuindo a dependência do dólar”, diz.
Além disso, a escalada de tensões entre EUA e Irã, que culminou nos ataques do último sábado, Outro elemento que reforçou a alta do metal foi o aumento do clima de instabilidade no cenário internacional. O agravamento das tensões diplomáticas e militares entre os Estados Unidos e o Irã, especialmente após episódios recentes de confrontos, elevou o nível de preocupação dos investidores.
Quando há expectativa de juros mais baixos, investimentos que pagam rendimento se tornam menos atrativos, e o ouro ganha espaço. Taxas menores tendem a enfraquecer o dólar, tornando o metal mais barato para investidores de outros países.
Após atingir recordes, o preço passou por ajustes pontuais, considerados naturais por especialistas.
Especialistas avaliam que a recente queda no preço do ouro é um movimento natural após fortes altas. Parte do recuo ocorre porque investidores aproveitam para realizar lucros, além de ajustes provocados pela valorização do dólar e pelas oscilações nos juros dos Estados Unidos.
Analistas também destacam que o ouro costuma reagir ao nível de incerteza do mercado, funcionando como um “indicador do medo”. Quando os riscos diminuem ou investidores decidem garantir ganhos, o preço pode ceder temporariamente, já que o metal não gera renda e depende basicamente da oferta, da demanda e do cenário econômico global.
Vale a pena investir em ouro agora?
O ouro segue sendo visto como uma alternativa de proteção em momentos de crise e instabilidade econômica. Em cenários de guerra, tensão internacional e alta de commodities como petróleo e gás, o metal costuma ganhar força por funcionar como defesa contra perdas em ativos mais arriscados.
Além disso, ele pode contribuir para a diversificação da carteira, ajudando a reduzir a volatilidade quando ações e outros investimentos passam por quedas.
Especialistas avaliam que ainda pode haver espaço para novas valorizações, dependendo do cenário global. No entanto, o ouro é mais indicado como instrumento de proteção de patrimônio do que como aposta de curto prazo. A parcela ideal na carteira varia conforme o perfil de risco do investidor.
“A questão não é se o ouro está caro ou barato, mas qual é o papel dele na carteira. Ele serve para proteção e diversificação. Para quem quer começar, faz mais sentido comprar aos poucos, ao longo do tempo
Especialistas destacam que o mais importante não é saber se o ouro está caro ou barato, mas entender sua função dentro da carteira. O metal é indicado principalmente para proteção e diversificação, e a recomendação para iniciantes é investir gradualmente.
Como o ouro não gera renda nem possui um valor justo fácil de calcular, seu desempenho no longo prazo costuma ficar atrás de ativos produtivos, como ações. Por isso, a exposição deve ser limitada — geralmente entre 3% e 5% do patrimônio — para não comprometer o crescimento da carteira.
No Brasil, é possível investir em ouro por meio da compra física, ETFs negociados na bolsa, fundos de investimento e contratos futuros (estes mais indicados para investidores experientes).
Apesar da volatilidade no curto prazo, analistas avaliam que o metal ainda tem papel relevante no médio e longo prazo, especialmente diante de riscos fiscais, alto endividamento global, conflitos geopolíticos e possível queda de juros nos Estados Unidos.
FONTE: G1 ECONOMIA






