A progressão do Alzheimer pode seguir um “mapa” interno do próprio cérebro. Um estudo publicado na revista Neuron identificou que a proteína tau —uma das principais envolvidas na doença— se espalha entre neurônios conectados, acompanhando as vias naturais de comunicação neural.
A descoberta ajuda a explicar por que os sintomas da doença avançam de forma gradual, começando pela memória e evoluindo para prejuízos cognitivos mais amplos —e abre caminho para novas estratégias de tratamento.
Como a doença avança no cérebro
O Alzheimer é marcado pelo acúmulo de duas proteínas: a beta-amiloide e a tau.
A tau, normalmente responsável por dar sustentação estrutural aos neurônios, passa a se deformar e formar emaranhados tóxicos dentro das células.
O que ainda não estava claro era como esses emaranhados “viajam” pelo cérebro.
Segundo o novo estudo, pequenos fragmentos da proteína conseguem se deslocar de um neurônio para outro por meio das sinapses —as conexões que permitem a comunicação entre as células cerebrais.
Na prática, isso significa que a doença não se espalha de forma aleatória, mas segue as rotas já existentes na rede neural.
Como a perda de memória evolui para declínio cognitivo no Alzheimer
Pesquisadores identificaram que a proteína tau segue um padrão específico de avanço no cérebro — o que ajuda a explicar a progressão dos sintomas da doença.
O processo costuma começar no lobo temporal, área fundamental para a memória. À medida que a proteína se espalha, ela alcança o lobo frontal, responsável por funções mais complexas, como raciocínio, planejamento e tomada de decisões.
Essa trajetória está diretamente ligada à evolução clínica:
- Fase inicial: falhas de memória, esquecimentos frequentes e dificuldade em reter novas informações;
- Fase intermediária e avançada: prejuízos cognitivos mais amplos, como confusão mental, dificuldade de linguagem e perda de autonomia.
Os resultados vêm de um acompanhamento detalhado de 128 participantes ao longo de anos, com uso de exames de imagem e análises cerebrais após a morte — o que fortalece a consistência das conclusões.
Cada cérebro reage de forma única
Um dos pontos mais relevantes do estudo é que a velocidade e a extensão dessa disseminação variam de pessoa para pessoa.
Isso acontece porque cada indivíduo tem um padrão único de conexões neurais —o que influencia diretamente como e até onde a proteína tau consegue se espalhar.
Ou seja: a arquitetura do cérebro pode ajudar a determinar a progressão da doença.
Impacto direto no tratamento
A descoberta reforça uma estratégia promissora: bloquear a disseminação da proteína tau.
Cientistas já testam terapias com anticorpos que tentam impedir que a proteína “salte” de um neurônio para outro. Se esse processo for interrompido:
- a progressão da doença pode ser desacelerada;
- e, em estágios iniciais, possivelmente contida.
O que ainda falta esclarecer
Apesar do avanço, os cientistas ressaltam que ainda são necessários mais estudos para detalhar exatamente como esse transporte acontece dentro do cérebro.
Mesmo assim, o trabalho representa uma das evidências mais robustas até agora de que o Alzheimer se espalha seguindo as conexões neurais —e não apenas por acúmulo local de proteínas.
FONTE: G1 SAÚDE. Redação g1






