Governo vai criar um Distrito de IA e Inovação, além de fazer novo aporte no Centro de Excelência em IA da Universidade Federal de Goiás
O governo de Goiás anunciou duas iniciativas para tentar colocar o Estado na dianteira do desenvolvimento de inteligência artificial (IA) no Brasil, em um investimento total de R$ 300 milhões nos próximos cinco anos. A primeira é a criação de um Distrito de IA e Inovação na cidade, que pretende atrair empresas e centros de pesquisa, enquanto a segunda é um investimento de R$ 78 milhões no Centro de Excelência em IA (CEIA) da Universidade Federal de Goiás (UFG).
Ocupando uma área de 91 hectares no Setor Leste Universitário, a iniciativa busca criar um “grande aglomerado” de empresas, centros de pesquisa e startups em um território que favoreça a interação e a troca de conhecimento. A inspiração vem de outros polos globais de inovação, como Vale do Silício, Israel, Barcelona e Medellin. No Brasil, o Porto Digital, no Recife, serve como espelho — o polo pernambucano ajudou a criar o projeto goiano.
— A gente percebe um padrão. Todos os grandes polos mundiais são aglomerados: empresas e centros num território ali próximo, porque aí vai acontecer muita interação, troca, aprendizado. A gente quer se consolidar como um dos principais polos de IA do Brasil — afirma José Frederico Lyra Netto, secretário de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação.
Além de revitalizar a região da cidade e receber a sede física do CEIA, o governo do Estado pretende atrair empresas por meio de incentivos fiscais (o ISS em Goiânia para empresas de tecnologias foi reduzido de 5% para 2%) e subsídios diretos, que, em alguns casos, podem cobrir até 50% da contrapartida empresarial em projetos realizados dentro do distrito.
A Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti) afirma que discute com a prefeitura de Goiânia também IPTU progressivo, isenção de ITBI, flexibilização de fachadas e possibilidades de verticalização acima dos 12m do plano diretor.
Como contrapartida, Netto afirma que todos os projetos deverão ser realizados fisicamente em Goiânia, o que, espera ele, pode resultar na oferta de empregos qualificados para profissionais da região e na retenção de talentos das universidades próximas.
O governo do Estado não terá participação direta em receitas futuras caso startups e projetos de grande empresas tenham sucesso a partir dos trabalhos realizados na cidade. No entanto, centros de pesquisa intermediários, como o CEIA, poderão ter seus próprios mecanismos de negociação de propriedade intelectual ou resultados.
Com isso, a primeira empresa a assinar um memorando de entendimento para instalação no distrito é a Semantix, empresa brasileira que já teve ações comercializadas na Nasdaq e que desenvolve soluções de IA para o mercado corporativo — atualmente, a companhia está instalada em Campinas, São Paulo. O governo goiano também diz que já apresentou o projeto para a AWS, da Amazon.
O projeto, porém, não prevê a construção de data centers ou foco em pesquisa básica — é uma abordagem diferente do projeto ‘Rio AI City’, que pretende investir US$ 65 bilhões para transformar o Rio de Janeiro no maior pólo de IA da América Latina e deve atrair a construção de data centers . O objetivo do distrito goiano é evoluir em IA aplicada, como afirma Netto:
— O nosso lugar é um lugar de aplicação e integração. A gente vai aplicar os modelos e vai integrar o que a gente tem. Eu não tenho bilhões de reais para ter data center ou para treinar modelos gigantes, mas eu consigo aplicar o que já existe.
Embora exista uma forte associação entre Goiás e o agronegócio, o distrito não prevê uma segmentação específica para a área. Por lá, a ideia é evoluir sistemas de IA para resolver problemas reais da gestão pública em áreas como educação, saúde e segurança, além de avanços em robótica e carros autônomos. Atualmente, o CEIA incuba a startup Synkar, que desenvolve veículos autônomos de pequeno porte para navegação em ambientes internos e externos.
Investimento no CEIA
Dos R$ 300 milhões, o CEIA fechou um novo convênio com o governo estadual de R$ 78 milhões, que deverá ser usado para renovar seu parque tecnológico, reter e atrair talentos em IA, incubar startups e desenvolver projetos educacionais no Estado. Segundo o governo goiano, o centro já atraiu cerca de R$ 500 milhões em investimentos privados, incluindo clientes como Google, Vivo, iFood, Volkswagen e TV Globo.
Quase metade do novo montante, R$ 40 milhões, será direcionado para a compra de novas GPUs da Nvidia. No ano passado, o centro já havia sido o primeiro do Brasil a receber os chips Blackwell B200, uma das linhas mais poderosas da companhia americana — neste ano, a instituição também adquiriu 31 unidades do DGX Spark, supercomputador portátil apresentado em março do ano passado.
O CEIA vai usar os novos recursos para investir em 2027 em chips com arquitetura Vera Rubin, que são otimizados para trabalho híbrido, capaz de realizar tanto o treinamento quanto a inferência de modelos de IA. Tradicionalmente, os chips costumam ter boa performance em apenas uma das tarefas, mas a Nvidia atingiu bom desempenho em ambas após integrar tecnologia da startup Groq, comprada em dezembro do ano passado por US$ 20 bilhões.
— Nosso objetivo não é treinar um LLM com trilhões de parâmetros. Nossa ideia é trabalhar com modelos open source e reduzi-los, perdendo o mínimo possível de acurácia. Vamos deixar modelos adequados para os nossos usos, usando fine-tuning e destilação para trabalhar com SLMs (small language models) — explica Telma Woerle Lima Soares, diretora do CEIA.
Parte dos R$ 40 milhões também será investida em um laboratório de mobilidade autônoma, o que parece ser uma contradição para quem mira investimentos eficientes — mesmo com rodadas massivas de investimentos, a última avaliada em US$ 16 bilhões, a Waymo, empresa “irmã do Google”, não conseguiu massificar carros autônomos. Telma, no entanto, afirma que o foco pode estar em veículos menores, como drones. Também afirma que o aprendizado por meio da tecnologia por ser aplicado em outras áreas:
— Por meio do carro autônomo, a gente desenvolve uma série de competências, que eu aplico em outras coisas. Por exemplo, fazer o edge AI, que é a IA para sistemas embarcados. Dado que isso é difícil para todo mundo, eu acho que é um jogo que a gente, como país, tem chance de jogar.
O restante do montante será usado em três frentes: acelerar até 40 startups e fomentar uma rede com até 100 empresas parceiras, capacitar 2 mil professores da educação básica do Estado como multiplicadores de conhecimento e atrair e reter talentos.
O CEIA sabe que não pode competir com os salários de grandes empresas de tecnologias, que disputam com força mão de obra especializada em IA, mas espera que o projeto possa ajudar a seduzir cientistas e engenheiros que estão nos EUA e na Europa e que miram além de ganhos financeiros.
— Nossa expectativa é buscar cientistas que tenham o desejo de voltar, seja por questões familiares ou outros motivos, e oferecer boas condições de trabalho. Teremos algum atrativo financeiro em algumas situações, não igual as internacionais mas ainda boas. E teremos um parque tecnológico pequeno, porém atualizado — explica Telma.
Assim, o CEIA tem como metas a produção de pelo menos 40 publicações científicas e a manutenção de mais de 130 bolsistas ativos simultaneamente. Serão desenvolvidos projetos específicos para Ciências da Vida (IA aplicada à saúde e biologia) e soluções para gargalos do setor público em áreas como saúde, educação e segurança.
Fonte: Jornal O Globo






